Nos dias de hoje, a maioria de nós compreende que a identidade de gênero pode ser bastante complicada a partir de uma perspectiva social, cultural e psicológica. Mas a ideia de que o gênero pode ser complicado a partir de uma perspectiva física, a de que uma atleta feminina pode vir a ser considerada não-feminina para os fins da competição, parece um pouco bizarra.

Na verdade, o gênero é mais um enigma físico do que social. Não existe um teste que possa determinar com certeza científica se alguém é homem ou mulher. Existe uma bateria de testes que avaliam os vários aspectos da distinção física de gênero, assim como existem várias opiniões sobre quais destes testes devem valer mais.

Em um caso recente de uma atleta reprovada em um teste de gênero, em dezembro de 2006, Santhi Soundarajan, de 25 anos, perdeu a medalha de prata pela corrida de 800 metros nos Jogos Asiáticos. Os primeiros testes de gênero dos anos 60, obrigatórios para todas as atletas femininas que competiam internacionalmente para garantir que elas não fossem homens, envolviam as atletas se despindo diante de um grupo de médicos. Essa prática não durou muito, devido às atletas sentirem-se ultrajadas. O atual teste de gênero, que ocorre somente quando um pedido é arquivado contra uma atleta específica, é muito mais científico.

Embora relatos sobre o que exatamente aconteceu durante o teste de gênero de Soundarajan não tenham sido divulgados, os testes de gênero de hoje seguem um caminho geral que inclui uma avaliação anatômica, uma análise genética, uma análise cromossômica e uma avaliação psicológica.
O exame físico que busca distinções anatômicas masculinas/femininas é bastante direto. Um ginecologista procura pelas características sexuais primárias e secundárias associadas à feminilidade, incluindo órgãos sexuais femininos, menstruação (em inglês) e ausência de pêlos faciais ou peitorais.

Embora o exame seja direto, os resultados não são: as mulheres podem nascer com anormalidades anatômicas; atletas femininas podem não menstruar por apresentarem pouquíssima gordura corporal; e a presença ou ausência de pêlos no corpo nunca é uma distinção absoluta entre homens e mulheres, somente uma indicação geral.

Então, é feito um teste de sangue. O teste de sangue serve para confirmar certas diferenças fisiológicas entre os sexos. Por exemplo, os testes de laboratório verificam os níveis apropriados de hormônios sexuais. Geralmente, os homens possuem mais testosterona no corpo, enquanto que as mulheres possuem mais estrogênio. Naturalmente, ambos os sexos possuem os dois hormônios no corpo, e não existe uma regra absoluta sobre o quanto de testosterona e estrogênio vai determinar uma mulher.

Por outro lado, a genética pode ser um pouco mais fácil de determinar, pelo menos superficialmente. Quase todos nós sabemos que cada célula do nosso corpo contém informação genética, e que parte dessa informação genética está relacionada ao gênero. A mulher geralmente possui dois cromossomos X em cada uma das células, enquanto que o homem geralmente possui um cromossomo X e um Y. Para verificar tais cromossomos determinantes do gênero, os médicos criam um cariótipo, que é essencialmente a disposição de todos os cromossomos de uma única célula. Caso apareça um cromossomo Y, supõe-se que aquela célula pertença a um homem. O problema é que essa suposição nem sempre é verdadeira. Algumas vezes, uma mulher pode apresentar um cromossomo Y ocasional; uma anormalidade genética. Outras vezes, ela pode apresentar o par XY em todas as células, como se fosse um homem, mas com vagina, seios, altos níveis de estrogênio e outros indicadores de feminilidade. Isso pode ocorrer quando o ativador do cromossomo Y – gene SRY – não funciona. É isso que o teste de gênero verifica a seguir.

Examinando o cromossomo Y presente numa célula feminina, o médico verifica se o gene SRY encontra-se ausente, mutado, danificado ou desabilitado. Se este gene não funciona, o processo de diferenciação fetal é afetado. Até o feto completar 7 semanas, ele ainda não é masculino e nem feminino. No momento da diferenciação, o cromossomo Y pode iniciar ou não o processo de criação da masculinidade. Geralmente, é a ausência do cromossomo Y que inicia o desenvolvimento da feminilidade. Todavia, um gene SRY defeituoso no cromossomo Y pode ter o mesmo efeito.

Mas o desencadeador do gene SRY não é o único fator do desenvolvimento da masculinidade, e mesmo as células com um gene SRY funcionando podem acabar sobrevivendo no corpo de uma mulher em sua plena função. A disfunção em qualquer um dos últimos estágios do desenvolvimento masculino-feminino, desencadeada por vários outros genes que representam um papel específico na distinção de gênero do útero até a adolescência, pode afetar o trato genético, cromossomo e físico que todo homem ou toda mulher possui. No final das contas, a determinação de gênero é um processo muito complexo e, geralmente, não apresenta uma resposta definitiva. Se alguém viveu a vida toda como mulher e possui seios, uma vagina, um útero e um cromossomo Y, o último fator é o único que determina o seu gênero? A presença de um cromossomo Y faz dela um homem? A presença de um cromossomo Y, mas com um gene SRY danificado faz dela uma mulher tão claramente quanto um par cromossômico XX faria?

O papel que a avaliação psicológica representa na determinação da feminilidade não é claro, embora a sua inclusão implique que a identidade genérica pessoal (o modo como alguém se enxerga em termos de sexualidade) é levada em consideração num teste de gênero. De acordo com um artigo publicado no San Francisco Chronicle, um anônimo, oficial do assunto, relatou que os testes de Soundarajan revelaram mais cromossomos Y do que os geralmente presentes na formação genética de uma mulher. O mesmo oficial afirmou não haver indicações de que a atleta tenha realizado uma mudança de sexo. Nos campeonatos asiáticos de atletismo, em 2005, Soundarajan também precisou realizar um teste de gênero e foi aprovada.

Para mais informações sobre testes de gênero e assuntos relacionados, confira os seguintes links:

•    Como funcionam as células
•    Como funciona a reprodução humana
•    Como funcionam os homens
•    Como funcionam as mulheres
•    Howard Hughes Medical Institute: Teste de Gênero para Atletas Femininas  (em inglês)
•    The San Francisco Chronicle: Corredora é reprovada em teste de gênero e perde a medalha – 18 de dezembro de 2006 (em inglês)

Fontes

•    "Gender Testing of Female Athletes." Howard Hughes Medical Institute.

•    "Indian athlete fails gender test." BBC News. Dec. 18, 2006.

•    Mathur, Anasuya and Sambuddha Dutt. "Experts warn against witch-hunt against Santhi." NDTV.com. Dec. 18, 2006.

•    Nakai, Sandeep. "Runner Fails Gender Test, Loses Medal." The San Francisco Chronicle. Dec. 18, 2006.

•    "Report: Female Athlete Fails Gender Test." CBS News. Dec. 18, 2006.