A história do UFC

Autor: 
Jonathan Strickland
A arte da publicidade do primeiro evento de vale-tudo
Imagem cedida por Josh Hedges
Ultimate Fighting Championship

Publicidade do primeiro evento de UFC

O Ultimate Fighting Championship foi uma invenção de Rorion Gracie, especialista no jiu-jitsu brasileiro, e de Arthur Davie, publicitário. Gracie queria promover a escola de artes marciais de sua família, centrada em técnicas voltadas para lutas verdadeiras e que descartava as mais indicadas para exibições ou demonstrações de estilo. Antes de se dedicar ao UFC, a família Gracie se tornou legendária por "O Desafio de Gracie", um convite aberto aos especialistas de qualquer técnica de luta para enfrentarem, numa luta real, um membro da família Gracie ou um dos estudantes de seus cursos.

Davie lançou a idéia de um torneio de artes marciais no grupo de entretenimento Semaphore (Semaphore Entertainment Group - SEG). Nesse torneio, especialistas em diferentes disciplinas das artes marciais se enfrentariam mutuamente para determinar qual o melhor estilo de luta. Segundo relatos, foi um dos empregados da SEG, chamado Michael Abramson, que usou pela primeira vez a expressão "O Campeonato de Vale-Tudo (The Ultimate Fighting Championship)". Em 12 de novembro de 1993, o SEG estreou o primeiro evento de UFC. Mais tarde, o evento seria conhecido como UFC 1.

O evento era organizado como um torneio (a maioria dos primeiros eventos de UFC seguiam esse padrão). O vencedor de uma luta era deslocado pela regra do torneio para enfrentar outro competidor. Davie designou alguns lutadores como alternativas, caso alguém ficasse incapacitado de continuar. O torneio apresentava mestres em caratê, boxe tailandês (kickboxing), boxe, jiu-jitsu e até mesmo em luta-livre de sumô. Royce Gracie, o irmão mais novo de Rorion, acabou vencendo o torneio depois que prendeu Gerard Gordeau com um mata-leão no embate final. 

O evento foi um sucesso e o SEG imediatamente planejou novos torneios. O SEG resolveu conservar o nome Ultimate Fighting Championship e designou quase todos os eventos futuros seqüencialmente (UFC 2, UFC 3, etc).

 

Royce Gracie
Ex-campeão do UFC
Royce Gracie

Ken Shamrock
Atual astro do UFC
Ken Shamrock

Imagens cedidas por Josh Hedges
Ultimate Fighting Championship

No início, os eventos do UFC eram muito diferentes dos de hoje. Não existia a classificação por peso - o menor lutador poderia enfrentar um lutador de sumô. As classes de peso seriam definidas para o torneio UFC 12 (embora tenham sido refinadas diversas vezes). Os lutadores podiam usar vestimentas típicas para seus estilos de luta. No início, o UFC tentou estabelecer experimentalmente quantos rounds poderiam ser travados. Nos primeiros anos alguns eventos não tinham limite para o número de rounds de cada luta, desejava-se que a luta prosseguisse até que um nítido vencedor se sobressaísse.

O confronto entre estilos enfraqueceu gradualmente. A maioria das lutas terminava no chão e muitas disciplinas apresentadas nos primeiros eventos de UFC não tinham foco nem treinavam a luta no solo. Royce Gracie venceu três dos quatro primeiros torneios, provando que a luta no solo era necessária para que se obtivesse sucesso. Os lutadores começaram a se adaptar, a expandir os respectivos repertórios de estilos e a incluir elementos da luta livre e de sujeições. Os eventos tinham poucos faixa-preta de artes marciais. O UFC logo descobriu que a faixa preta não significava necessariamente que seu usuário fosse bom lutador.

No começo, o UFC tinha eventos nos estados americanos que não possuíam comissões atléticas, tendo em vista evitar as regulamentações. Também não havia juízes. Mesmo depois da chegada dos juízes aos eventos, continuava a falta de parâmetros claros para julgamento de uma luta. Os juízes não podiam parar a luta, deveriam apenas se assegurar de que as poucas regras existentes fossem seguidas e testemunhar as desistências. Felizmente, o UFC deu autoridade aos juízes para interromper as lutas depois dos primeiros eventos.

Exceto pelo UFC 9, que apresentou uma série de lutas isoladas, todos os eventos do UFC desenvolviam-se como torneios até o UFC 18. Desse momento em diante, com exceção do UFC 23, todos os eventos passaram a apresentar lutas isoladas, os lutadores não precisavam mais se preocupar com várias lutas em uma mesma noite.

De acordo com Dana White, a evolução do UFC foi aleatória, pois nunca foi intencional. "Aquele espetáculo, o primeiro Ultimate Fighting Championship, deveria ter sido o único. Entretanto, foi tão compensador no pay-per-view que decidiram fazer outro, e depois mais outro. Nunca, nem em um milhão de anos, pensavam estar criando um esporte".

Gradualmente, o UFC introduziu mais regras e restrições, tanto para apaziguar os críticos como para modelar as artes marciais mistas ao formato de legítimo esporte. Infelizmente, nessa época, o SEG estava passando por dificuldades financeiras. Do UFC 23 ao UFC 29 o SEG ficou ameaçado de falência. Como resultado, o SEG não pôde mais arcar com o lançamento dos eventos em vídeos caseiros.

Controvérsias nos tribunais
O SEG fazia a promoção dos primeiros eventos do UFC como lutas brutais entre experts em artes marciais. Alegavam que as lutas não tinham restrições e que todas as lutas terminavam com um ineqüívoco vencedor. No final, diziam, o estilo superior das artes marciais acabaria por emergir. De tanto alardearem as lutas como brutais exibições de força, atraíram o olhar dos críticos.

Um desses críticos foi o senador dos Estados Unidos, John McCain. McCain era um fã do boxe e achava que as lutas de UFC eram parecidas com "brigas de galo humanas". Dentro desse ponto de vista, defendia que os eventos de UFC fossem banidos pelas prefeituras e governadores de Estado. Diversas lutas programadas tiveram seus calendários alterados no último momento, quando os estádios diziam que a permissão para o evento de UFC havia sido revogada.

Durante muito tempo o UFC resistiu em tomar providências para fazer parcerias com as comissões atléticas estaduais. Em vez disso, o SEG continuou a promover o MMA como esporte primitivo, o que só contribuía para aumentar o problema. Algumas emissoras de televisão a cabo se recusavam a transmitir os pay-per-views de UFC. As opções do SEG se tornavam mais e mais limitadas. Era tarde demais para o SEG se restabelecer quando o UFC resolveu adotar as regras impostas pela junta diretiva de atletismo de New Jersey.

Na próxima seção, veremos como uma nova companhia foi capaz de reinventar o Ultimate Fighting Championship.